umapausa

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domingo, dezembro 21, 2008

Estúpido fascínio


Marina tinha mesmo uma espécie de vício por aquelas sacolas. Não só utilizava-as para acumular o lixo do dia, transportar objetos e, claro, carregar as compras do supermercado, como também, colecionava-as.

Em sua cômoda, uma gaveta com uma porção delas dobradas, de vários tipos, cores, novas ou antigas. Quando ia fazer compras, fazia questão de pegar o máximo de sacolinhas. Queria todas elas para si.

Nem ela sabia, ao certo, o porquê de seu estúpido fascínio. Era o material esticável, o barulho, o cheiro, a forma como se consolava das decepções do mundo, rasgando-as em pedacinhos. Não sabia o que havia de tão interessante ao queimá-las e ver sua estrutura derreter, formando um creme de plástico sob uma fumaça escura.

Enlouquecia só de pensar nos movimentos contras as sacolas de plástico, não se conformava com a idéia de perdê-las para sempre. Só de pensar, abraçava suas amadas. Marina queria moder, beijar, comer, ser uma sacola.

Mas o mundo não queria mais sacolinhas. A moda de outros tipos de sacola, como as de lona, de ráfia e de tecido qualquer, estava se disseminando. Ela participava de debates, conferências, discussões sempre defendendo-as. Enquanto isso, sua obsessão aumentava, seu estúpido fascínio, intensificava.

Então, Marina perdera a guerra um dia. Em casa sozinha, já em estágio caótico, comia sacolas. Presa em sua solidão, chorava prantos sinceros e profundos. Ao seu lado, havia uma montanha de sacolas de imensa extensão e altura, na fila para serem picotadas.

Quando ela terminou de picotar todas elas, se aninhou entre os pedaços de polietileno e dormiu. Noutro dia, Marina acordara com uns braços em volta de seu corpo, deitada em sua cama. Assustada, ela olha para ver quem era. E boquiaberta, contempla seu novo homem. O homem sacola.

quinta-feira, setembro 11, 2008

SUJEITO INDETERMINADO

Era uma vez o fim. O fim do vício, finalmente largaram o cigarro. Mas quem largou o cigarro?
O sujeito era indeterminado. Não tinham estrutura, não sabiam sobre si. Crises e crises de identidade da era contemporânea, estavam na modam afinal a era é assim. Mas largaram o cigarro e mesmo sabendo poderia ser um sujeito simples, decidiram ser um sujeito indeterminado.
E hoje não posso dizer que pessoa é. Nem se é uma pessoa singular.
A verdade é que o cigarro foi largado por ausência de pessoa. E justamente por ser assim: sujeito indeterminado. Se não há pessoa, não há ação para o cigarro. Não há fumante. Não há fim do vício! Não há nada!
Apenas entenda que largaram o cigarro. E quem largou é um sujeito indeterminado.

[Dedicado, somente, aos amantes da Língua Portuguesa]

segunda-feira, setembro 08, 2008

Antonieta é vida

Um dia se despiu da roupa pesada que a cobria. Chegou em casa mais cedo, desligou a energia, escondeu seu celular. Se enfiou no banho interminável, com águas frias e corrente. Jurou pra si: não sou a mesma. Jurou de novo. E continuou.
Depois de um tempo apareceu um outro. Não, digamos, um outro amor. Porque nela cria que amor é único, não são vários, não são tipos, é um e se não for, já era. Foi bonito assim. Mas ela não o queria.
Cansou de fingir que acreditava naquelas promessas românticas e arcaicas. Cansou fingir uma coisinha light, um amor bobinho, coisinha calma. Queria sentir na pele seu fogo arder, o fogo doentil da mulher poderosa, o fogo que apagam desde que nasce a pequena flor, menina.
Antonieta agora é Cathelly. Trabalho noturno, começou a malhar. Pôs silicone, pintou o cabelo, fez sobrancelha permanente. Clareou seu sorriso, não apenas com os produtos, mas com sua própria carne, seu próprio arder. O veneno que jorrava de seu corpo imaginário, exalava uma essência fulminante. Em dois meses tinha seu carro. Tinha uns 36 amantes.
Não é que puta é outra gente. É bicho, é coisa nociva. É o auge da mulher envenenada. Liberta para deglutir seu próprio poder.
Puta é mulher sem freio. Não é perdida, mas achada em si. Louca seria se fosse mais uma inha. Pintando seus quadros no seu apartamento pequeno, esperando seu namoradinho voltar das viagens à trabalho. Saída ao domingos em que sempre encontrava sua amiguinha desconhecida, amante dele. Aquele cara rico, trinta e cinco anos e antidepressivo, cabelinho liso e braços malhados. Ele mesmo, o playboy gostoso, não passava de um idiota, que não sabe contemplar toda a essência e poder de uma, apenas, um mulher. Antonieta fugira de tudo, largou seu futuro noivo, cansou de seus chifres.
Ela mora em uma mansão moderna, tem marido e faz filmes pornôs para os franceses todo ano. Brevemente terá um filho, mas por enquanto ama seu cachorro. Os dois cachorros, o marido submisso e o labrador fiel. Tudo porque o marido, sabe deglutir toda a essência de uma mulher. Ele é o mais feliz.


sexta-feira, agosto 15, 2008

pouca mentira dentro de si


sentiu-se míope e incapacitada, não poderia jamais enxergar seu próprio erro, sua própria moléstia infantil ao seu jeito. Acreditar demais, levar a sério signos linguísticos tão míseros perto de uma alma humana. A explosão da alma, uma caixa perturbada de surpresas, a alma é admensional devido a sua imensidão.
Não se sabe como é, porque nunca foi. Sempre esteve ou estará, nunca é e nunca será. Nunca permanecerá em fixo o caráter colhido pelo faro do amor, o mesmo faro que lança laços eternos de relações harmônicas, sejam duradouras ou não, sejam eternas ou imaginárias. O faro que suga as qualidades de um corpo com alma, para si. E entrelaça. E aperta em seu peito.
Assim forma-se a consideração. Não que ela seja um processo obrigatório, ou um processo espontâneo. Ela nasce da consequência do bum! O bum do orgulho por achar qualidades num corpo, qualidade incomuns, raras, qualidades clichês, mas qualidades. O medo de perder aquela caixa de alma, o medo seu faro não mais poder sentir o cheiro do abraço que diz: ' não é só', leva a consideração.
Não é fácil achar coisas que movem nossa pesada emoção. Não é fácil ser compatível com essas coisas espalhadas no mundo, coisas chamada vulgarmente por seres humanos. Se em seis bilhões de pessoas no mundo, com mais ou menos umas mil em convivência, quase no máximo três ou quatro, quem sabe cinco ou até uma é especial, é grande coisa? É especial e importante, a consideração é um diamante raro, que pouquíssimos possuem.
Sim, creu. Creu que pudera mais um vez experimentar o gosto do eterno, a leveza da consideração, a ação natural da relação de mutualismo, boas-novas ao bom convívio, embora ainda assim, houvesse lá, naquele momento, uma brecha do obscuro.
E a brecha cresce a medida que o laço enfraquece. O silêncio do não e o excesso da hipocresia.
Sentiu-se míope e incapacitada à medida que sentira na língua o gosto amargo de seu erro, deu-se demais ao que cria, não olhou por um minuto a brecha.
Mas a brecha cresceu e a ensurdeceu.

sexta-feira, julho 25, 2008

(porta voz)


" estou perplexa, sou um objeto? não valho tanto, sou um inseto grotesco e doente. Doença hiper-contagiosa, só de olhar-me, contamino. Não sei se agradeço por ter, ao menos, um emprego, ou se blasfêmio meu próprio nascimento, por sofrer tais deformidades. Ah, esqueci. Eu não penso. Eu não tenho cérebro, sou uma máquina, das mais feias e velhas. Um inseto-máquina doente.
Não tenho senso crítico, muito menos opinião. Não sei decidir, afirmar. E se sei, minto para mim, para todos, dizendo que não.
Mas não é que quem engana a si próprio, um dia estoura, um dia caí em calamidade, em desajuízo e desventura malígna do destino? A loucura é um bom preço para a auto-mentira. Mas meu caro e invisível ouvinte, eu não fico louca. Máquinas entram em pane, mas sou também um inseto o máximo que consigo fazer de revolta é morrer.
Minha morte... já pensou? Caixão despedaçado, papelão por dentro, uma camada tosca e fina de madeira por fora, com verniz. Ninguém irá ao meu enterro, estão todos trabalhando sem tempo para lamentar.
Igual sou. Não lamento a vida. Guardo pra mim, a noite durmo, pesadelos. Fico com raiva, vou estourar! Mas, o trabalho primeiro.
Sou uma empregada doméstica. Por que rir? Não é piada, é emprego. Eu trabalho pra ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro pra comer, dormir e quem sabe conseguir viver.
Eu acordo e vou trabalhar, na dúvida se agradeço. Um duelo em minha mente entre a gratidão e o maldito dia em que nasci. Mas eu não penso, então isso não acontece com meu consciente. E que fique claro que quem fala aqui é incoscinente. E como sei disso tudo? Nunca estudei direito. Minha letra é torta, falo tudo errado. Eu tenho pobrema. Eu sou coitada. Não penso.
Chego na casa da madame chorona, seu marido a tratou mal de novo. Dessa vez não quis lhe pagar a reposição de silicone e ainda por cima gritou com seu filho mimado de três anos assistindo tevê à cabo. Quem diria, o menino idiota e tosco, finalmente ouviu um grito pela primeira vez. Hoje é uma gracinha, amanhã é mais um playboy queimando travestis e índios na rua.
A madame é um doce. Fala comigo com carinho, ela não fala com carinho de verdade, mas com dó. O carinho advindo da dó. Sou feia, sou pobre. Oh dó!
Eu sei fazer tudo direito. Sou a melhor empregada da madame, ela já teve tantas, e eu agüentei. Seu bom coração me comove, mas sua forma mesquinha de agir, me incomoda. Ela dá tudo para sua filha de cinco anos, a tal menininha mimadinha, mais chata que o de três.
Eu faço tudo por aquela menina. Ela grita comigo. Me manda ir embora. Falo bom dia, ela diz saí enjoada. Eu faço sua comidinha, ela joga os restos na minha cara. Eu falo que ela é linda, ela diz com voz cheia de vontade, que sou feia. A menina mimada malvada. Será mais uma madame chorona, corna e entupida de vaidades e vazios.
Mas por que digo isso? Eu não penso.
Sou fedida. Sou suja. Sou motivo de piada. Empregada doméstica.
Amanhã quem sabe, bato num bebê pra vingar minha raiva. Melhor, roubo o marido de uma patroa qualquer. Então, melhor, engravido! Não. Não penso. Não sei o que fazer.
Vou trabalhando dia após dia. Meus braços, minhas pernas pensam por mim. Não tenho cérebro.

Sou empregada, hahahaha, doméstica. "