umapausa

umapausa

sexta-feira, julho 25, 2008

(porta voz)


" estou perplexa, sou um objeto? não valho tanto, sou um inseto grotesco e doente. Doença hiper-contagiosa, só de olhar-me, contamino. Não sei se agradeço por ter, ao menos, um emprego, ou se blasfêmio meu próprio nascimento, por sofrer tais deformidades. Ah, esqueci. Eu não penso. Eu não tenho cérebro, sou uma máquina, das mais feias e velhas. Um inseto-máquina doente.
Não tenho senso crítico, muito menos opinião. Não sei decidir, afirmar. E se sei, minto para mim, para todos, dizendo que não.
Mas não é que quem engana a si próprio, um dia estoura, um dia caí em calamidade, em desajuízo e desventura malígna do destino? A loucura é um bom preço para a auto-mentira. Mas meu caro e invisível ouvinte, eu não fico louca. Máquinas entram em pane, mas sou também um inseto o máximo que consigo fazer de revolta é morrer.
Minha morte... já pensou? Caixão despedaçado, papelão por dentro, uma camada tosca e fina de madeira por fora, com verniz. Ninguém irá ao meu enterro, estão todos trabalhando sem tempo para lamentar.
Igual sou. Não lamento a vida. Guardo pra mim, a noite durmo, pesadelos. Fico com raiva, vou estourar! Mas, o trabalho primeiro.
Sou uma empregada doméstica. Por que rir? Não é piada, é emprego. Eu trabalho pra ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro pra comer, dormir e quem sabe conseguir viver.
Eu acordo e vou trabalhar, na dúvida se agradeço. Um duelo em minha mente entre a gratidão e o maldito dia em que nasci. Mas eu não penso, então isso não acontece com meu consciente. E que fique claro que quem fala aqui é incoscinente. E como sei disso tudo? Nunca estudei direito. Minha letra é torta, falo tudo errado. Eu tenho pobrema. Eu sou coitada. Não penso.
Chego na casa da madame chorona, seu marido a tratou mal de novo. Dessa vez não quis lhe pagar a reposição de silicone e ainda por cima gritou com seu filho mimado de três anos assistindo tevê à cabo. Quem diria, o menino idiota e tosco, finalmente ouviu um grito pela primeira vez. Hoje é uma gracinha, amanhã é mais um playboy queimando travestis e índios na rua.
A madame é um doce. Fala comigo com carinho, ela não fala com carinho de verdade, mas com dó. O carinho advindo da dó. Sou feia, sou pobre. Oh dó!
Eu sei fazer tudo direito. Sou a melhor empregada da madame, ela já teve tantas, e eu agüentei. Seu bom coração me comove, mas sua forma mesquinha de agir, me incomoda. Ela dá tudo para sua filha de cinco anos, a tal menininha mimadinha, mais chata que o de três.
Eu faço tudo por aquela menina. Ela grita comigo. Me manda ir embora. Falo bom dia, ela diz saí enjoada. Eu faço sua comidinha, ela joga os restos na minha cara. Eu falo que ela é linda, ela diz com voz cheia de vontade, que sou feia. A menina mimada malvada. Será mais uma madame chorona, corna e entupida de vaidades e vazios.
Mas por que digo isso? Eu não penso.
Sou fedida. Sou suja. Sou motivo de piada. Empregada doméstica.
Amanhã quem sabe, bato num bebê pra vingar minha raiva. Melhor, roubo o marido de uma patroa qualquer. Então, melhor, engravido! Não. Não penso. Não sei o que fazer.
Vou trabalhando dia após dia. Meus braços, minhas pernas pensam por mim. Não tenho cérebro.

Sou empregada, hahahaha, doméstica. "