umapausa

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quinta-feira, setembro 11, 2008

SUJEITO INDETERMINADO

Era uma vez o fim. O fim do vício, finalmente largaram o cigarro. Mas quem largou o cigarro?
O sujeito era indeterminado. Não tinham estrutura, não sabiam sobre si. Crises e crises de identidade da era contemporânea, estavam na modam afinal a era é assim. Mas largaram o cigarro e mesmo sabendo poderia ser um sujeito simples, decidiram ser um sujeito indeterminado.
E hoje não posso dizer que pessoa é. Nem se é uma pessoa singular.
A verdade é que o cigarro foi largado por ausência de pessoa. E justamente por ser assim: sujeito indeterminado. Se não há pessoa, não há ação para o cigarro. Não há fumante. Não há fim do vício! Não há nada!
Apenas entenda que largaram o cigarro. E quem largou é um sujeito indeterminado.

[Dedicado, somente, aos amantes da Língua Portuguesa]

segunda-feira, setembro 08, 2008

Antonieta é vida

Um dia se despiu da roupa pesada que a cobria. Chegou em casa mais cedo, desligou a energia, escondeu seu celular. Se enfiou no banho interminável, com águas frias e corrente. Jurou pra si: não sou a mesma. Jurou de novo. E continuou.
Depois de um tempo apareceu um outro. Não, digamos, um outro amor. Porque nela cria que amor é único, não são vários, não são tipos, é um e se não for, já era. Foi bonito assim. Mas ela não o queria.
Cansou de fingir que acreditava naquelas promessas românticas e arcaicas. Cansou fingir uma coisinha light, um amor bobinho, coisinha calma. Queria sentir na pele seu fogo arder, o fogo doentil da mulher poderosa, o fogo que apagam desde que nasce a pequena flor, menina.
Antonieta agora é Cathelly. Trabalho noturno, começou a malhar. Pôs silicone, pintou o cabelo, fez sobrancelha permanente. Clareou seu sorriso, não apenas com os produtos, mas com sua própria carne, seu próprio arder. O veneno que jorrava de seu corpo imaginário, exalava uma essência fulminante. Em dois meses tinha seu carro. Tinha uns 36 amantes.
Não é que puta é outra gente. É bicho, é coisa nociva. É o auge da mulher envenenada. Liberta para deglutir seu próprio poder.
Puta é mulher sem freio. Não é perdida, mas achada em si. Louca seria se fosse mais uma inha. Pintando seus quadros no seu apartamento pequeno, esperando seu namoradinho voltar das viagens à trabalho. Saída ao domingos em que sempre encontrava sua amiguinha desconhecida, amante dele. Aquele cara rico, trinta e cinco anos e antidepressivo, cabelinho liso e braços malhados. Ele mesmo, o playboy gostoso, não passava de um idiota, que não sabe contemplar toda a essência e poder de uma, apenas, um mulher. Antonieta fugira de tudo, largou seu futuro noivo, cansou de seus chifres.
Ela mora em uma mansão moderna, tem marido e faz filmes pornôs para os franceses todo ano. Brevemente terá um filho, mas por enquanto ama seu cachorro. Os dois cachorros, o marido submisso e o labrador fiel. Tudo porque o marido, sabe deglutir toda a essência de uma mulher. Ele é o mais feliz.