umapausa

umapausa

sexta-feira, dezembro 18, 2009

minha Maria


E o pior de tudo é que eu te amo. Não aquele amor obrigatório de quem tenta ser grato. É um amor além das malditas palavras que eu falo, sempre quando você me irrita. Aquele amor que se maltrata, abraçado pela raiva, acolhido por uma implicância. Um amor de quem tem orgulho e muito arrependimento, quase rancor.
Eu não a amo, eu te amo. Amor, na verdade, jamais precisou de formalidade. Amor é feio, fala errado, anda torto e é sonso. É esse, o mais mal vestido, trapo e fedido, que sinto por você. Às vezes se aninha no meu humor variante, às vezes é tão racional, que é quase fingido.
Antes, dizia que amor machucado virava ódio. Mas não, não é verdade. Meu amor por você, que tem partes aleijadas, é tão vivo quanto qualquer outro que sinto por aí. Ele é bizarro, mas é puro e sedento. Quer seu bem. Quer a sua, mais que a minha, felicidade. Quer vê-la sorrindo, cantando ou com os olhos brilhando de quem sabe driblar essa maldita vida.
Meu amor pode perder seus membros, mas regenera. Ele não morre, é imortal. Morre eu, morre eu duas vezes! Mas o meu amor, fica. Aqui, cravado em qualquer coisa que possa ser fixo. Fica no meio dessas coisas ruins que às vezes eu falo, fica escondido atrás das minhas queixas de seus defeitos, dos meus eternos dramas e mimos.
Nada, ninguém, nem você, que é o motivo dele existir, o destroí. E eu quero dizer, que desde que eu pus minha cabeça nesse mundo, sou ingrata. Chorei, ao invés de rir. E choro até hoje, ao invés de rir para você. Não falo todos os dias, mas deveria dizer: me perdoe, te amo. Sou teimosa, não consigo ficar calada quando eu tenho, não consigo ter a maturidade que deveria, mas eu te amo. Amor feio, mas eu juro, um dia ele ainda vai ser lindo, igual você, mãe.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

cedotardar


tenho no peito tanto medo, é cedo
minha mocidade arde, é tarde
se tens bons senso ou juízo, eu piso
se a sensatez você prefere, me fere

venha tratar esta loucura, ou cura
faz desse momento terno eterno
quando o destino for tristonho, um sonho
quando a sorte for madrasta, afasta

não, não é isto que sinto, eu minto
acende essa loucura sem cura
me arrebata com um gesto do resto
não fale, amor, não argumente, mente

seja no peito que me doí, heroí
se o seu olhar você me nega, me cega
deixe que eu aja como louco que é pouco
no mais horroroso castigo, te sigo

(tom zé)

sexta-feira, novembro 27, 2009

Aqui


Estamos aqui, reunidos isoladamente, sob as mesmas reivindicações. São efêmeras as alegrias, são infinitos os problemas. Eu não quero voltar a ser criança para ser, novamente, idiota. Adulta que seja, eu quero ser o que sou. Hoje sou estúpida, mas com lágrimas e tormentos, enxergo um mundo mais real. Enxergo?
Atarefados de lamentações, passamos dia após dia a mergulhar num tal de ego. O muro que subi foi para me proteger, mas também, para ficar tudo mais centrado em mim. E lengalenga de problemas montanhosos que não acabam, se multiplicam, sucessivamente. Mitoses mutantes, alotopradas, conjugando suas cópias numa só, um gigante que intitulamos o maior de todos os problemas. Seja ele qualquer merda que for. Culpamos um motivo central para todas as aflições.
Hoje, inutilmente, convido-me a desfragmentar esse gigante. Vamos despedaçar o grande problema. Terei mais, mas terei pequenos. A forma de fazer tal aterfato, eu não sei.
Mas eu uso um caminho amador de quem quer muito parar de sofrer mazelas. Olho para o próximo e aspiro, com forte ousadia, o que posso. Se de lá saem problemas, cá estou para dizer: fique firme. Embora eu não esteja em meus próprios, dizer para os outros, me conforta.
Vejo solução em quase tudo. E na morte imagino uma forma de convivê-la.
Tão isolados, não evoluiremos. Sim, a vida vai passar. Cada dia mais gelo e mágoa para a gente ficar naquela fortaleza hipócrita de ser insensível, mesquinho. E ingrato.
Para quê tanta privacidade? Falarão, de qualquer forma, falarão. O amor ao próximo cristão é um pensamento, cientificamente, genial. É um pretexto para unir seres que só tendem a se separar, à medida que crescem. Nascemos paratisas, sugamos do seio de uma mãe que não honramos o suficiente, dependemos de um pai que nunca poupamos. Depois, deixamos nossas colônias, as famosas famílias, para sermos um só. Mesmo ao lado de tão queridos, amáveis, eternos, lindos, amigos; mesmo ao lado de meigos, fieis e fortes irmãos; mesmo com conjugês e qualquer adereços humanos; somos individualistas. Eu. Nada mais.
Estou aqui, braços abertos, sinceros, caleijados, querendo fechar para uns tantos imbecis, querendo abrir para uns tantos ingratos, querendo esmurrar a maioria, e finalmente, querendo abraçar quem precisa de verdade. Porque eu necessito dissolver meus problemas em suas lágrimas. Preciso fazer do meu gigante, pequenos incômados quaisquer.
Me revolto que quando criança, eu não era pura e nem boa, só não sabia das coisas. E tenho raiva de terem mentido para mim. Minha pureza vem de agora. Dessa raiva e revolta. Sou teimosa, gotejo sangue, tenho feridas abertas e estou suja de mundo, mas eu estou aqui.

quinta-feira, novembro 12, 2009

por enquanto, não agradeço

O que importa é estar vivo. Mesmo infeliz, vivo. Uma tendência estupidamente humana de achar que estar vivo é tudo. Como se meu corpo respondesse por toda minha alma, se ele respira, está tudo bem. Não, não está tudo bem. E eu tenho essa revolta, vã, com o pouco.
Eu agradeço a Deus por estar viva sim, porque, hoje, eu tenho medo de morrer. Não porque isso me deixa feliz. Satisfatoriamente feliz. Estar aqui entre todos os bióticos, oh! sol! Obrigada pelos raios. Vento! Obrigada pelas brisas que me acordam de manhã! Oh! Cachoeira, chuva, coelhinho, alface, batata, obrigada! Oh!
O que importa é querer estar vivo para tentar ser feliz. E que fique claro que os verbos dessa frase são marcas de possibilidades. Porque somos alvo do que pode ser e não do que é. O querer é suficiente, ainda que não passe de uma simples querência, é o suficiente para sermos dignos de viver. Quanto ao tentar, é um mérito, vida, destino, Deus. Tentar ser feliz é para todos, conseguir, somente aqueles que acreditam que são felizes. Tão simples! Você se vê numa poça de problemas, abraçado por mentiras, enforcado pelas desilusões, mas ri. Não porque mente, mas porque acredita demais. Porque mesmo seu corpo dentro dessa poça, é você que está lá em cima, se olhando. Vendo sua situação acima de si. Rindo, porque isso é remédio da alma.
Porque quem ri é mais amado. Mais suportável. Simpático. Porque você faz das desgraças, piadas. Porque você é sarcástico. Incrível!
Estar vivo, enfim, não é necessariamente estar feliz. Não é ingrato quem não agradece. É, somente, infeliz. Ou por uma visão mais otimista, mais lunista: está infeliz.


" Menina, amanhã de manhã, quando a gente acordar, quero te dizer que a felicidade vai, desababar sobre os homens, vai, desabar sobre os homens. Na hora ninguém escapa, debaixo da cama ninguém se esconde, a felicidade vai, desabar sobre os homens, vai, desabar sobre os homens." ( Tom Zé)

sábado, outubro 10, 2009

ontem à noite


Assim que desliguei o celular, repetia em mim " tristeza não tem fim, felicidade sim". Como se fosse essa a trilha sonora do que passava naquele instante.
Tentei fugir. Mergulhar minha mente nos insólutos problemas matemáticos que o professor protagonizava no quadro. Foi em vão. A música vinha ora com a voz suave do Tom Jobim, ora com a ríspida e sincera voz de Tom Zé. Ou então, vinha somente com um saxofone fúnebre.
Pensei em tudo e fiz daquela matemática, que era somente um pano de fundo, uma base para dramatizar mais. Ou pelo menos ser um pretexto bom suficiente para poder entristecer. Adicionei mais problemas, multipliquei impossibilidades. Subtraí de tudo, restos de alegrias, que naquele momento, aos meus olhos, eram restos. E por fim, não dividi nada com ninguém.
A música novamente veio, agora com uma orquestra sinfônica e uma voz tenor de um homem qualquer. Nesse momento, tive vontade de rir. Do meu melodrama. Do minha mania de fazer a realidade virar uma cena, jamais assistida, de um filme. Um belo filme.
Eu sabia que isso era só começo. E ainda sei. Não como uma mente pessimista, sem esperança. Uma mente já madura perante a isso. Acostumei com essas loucuras, esses desalinhos da vida.
Então, cansada de ouvir a música mental, cansada de ficar pensando e simplesmente pensando, nada resolvendo, comecei a prestar atenção no cálculo daquela velha aritmética. Esqueci a ligação. Do que me falaram. Fiquei tão concentrada naquela aula tão, pelo menos para mim, repetitiva que bateu o sinal. Os loucos foram liberados do hospício. Uma correria afobada, disputa de todos, pra quem sai do manicómio primeiro. O sinal foi um meio de voltar a ouvir " Tristeza não tem fim, felicidade sim", não sei porquê, mas foi.
Quando eu saí daquele cursinho tedioso, quente e muito azul, minha mãe não estava lá. Que raiva, pensei. Cadê minha mãe? Eu quero minha mãe! Eu quero minha mãe. " Tristeza não tem.."
Mas lá estava ele. Meu maior referencial da normalidade. Meu botão de escape da loucura, que me retorna e torna a realidade, não tão má, não tão ruim. Mas a realidade que ele me ensinou a viver. Idiota, feliz. Porque no final, é tudo uma piada. Entrei no seu carro, estava passando mais um daquelas músicas loucas que ele jura que é um pré-estouro de sucesso mundial. A minha música, já muitas vezes mixada, da minha mente, finalmente acabou. Meu homem.

sábado, outubro 03, 2009

Salvador, duas vezes.

Não, obrigada. Não quero saber quem é você. Quero que fique assim, como está. Sabendo do seu estereótipo, deusificando-o ou apenas admirando um dom seu, que também, é um pouco meu.
Não quero saber do seu nome. Nem do que mais faz. Se eu pudesse, seria até invisível. Só para não ter risco nenhum de criar algum laço de amizade porque se eu saber quem é verdadeiramente você, posso perder meu único objeto humano, atualmente, a ser muito admirado.
Permaneçamos assim. Não me chame, não me pergunte, não tente conversas que sempre intermináveis, gerarão impressões, na maioria falsas. Na maioria, injustas.
Não tenho tempo para mostrar quem eu sou. Não tenho meios para deixar isso fielmente digno. Se palavras saírem, podem quebrar o encanto. Não terei mais a quem seguir.
Alguém que me fortalece, que me ampara, que muda minha vida, sem dizer nenhuma palavra. Porque sua luta, é também, agora, minha. Sua vitória, é mais uma das minhas vitórias, de muitas vitórias de que muitas pessoas que admiro, almeja.
Enquanto posso viver esse ilusório encanto, de ver em alguém toda a pureza e certeza de que seguir em frente, me deixe em paz. Porque quando eu enfraquecer de novo, é de você que virá a força.

sexta-feira, setembro 04, 2009

demasiada confissão

chegamos a tal ponto, talvez o climáx do fracasso, que foi preciso uma briga para invetar-se perdões e enfim, reconciliar-se. não da briga que tivemos, mas da mágoa que guardamos durante esse bom tempo que fingimos não doer. A briga foi um pretexo para haver uma reconciliação que seja, talvez abraços sinceros de perdão, talvez promessas cobertas de amor, mas qualquer ato de carinho, que derretesse o gelo infinto que estava exatamente entre nós.
Seres humanos são sempre os mesmos. Se acontece comigo um erro, acontece com todos, o mesmo e exato erro, que se põem com outros trajes, mas continua sendo mesmo.
O ego, orgulho, o eu, o egocentrismo existe sim e está nos corações mais bondosos assim como também nos mais perversos. Evitamos, mas não soubemos resistir.
vez outra eu topo com esse muro que topei. Bato de cara. De frente. Machuco. Caio no chão.
Lá, machucada, me recomponho. Como se minha alma, meu verdadeiro eu se perdesse dentro de mim e só no chão, em pedaços, para achá-lo de volta. Eu amo estar assim.
E na verdade, estamos assim. Nós dois, aos cacos. No chão. Enquanto eu pego seus restos, você me ajuda, pegando os meus. Juntaremos o restos que a vida fez de nós. Mesmo que nesse momento seja preciso eu pegar um pouco de você, para me recompor, mesmo que seja preciso eu dar um pouco do meu eu, para você se recompor, nos recomporemos.
Eu sempre soube que essa história era mesmo muito idiota para ser tão complexa. Sempre soube que por trás de tudo, havia um outro sentindo e hoje sei que esse sentido é o que sempre busco na vida, porque você, melhor do que ninguém, me ensinou a buscar o que há de mais verdadeiro. Nosso amor nunca não foi verdadeiro, mas por um tempo, por um longo tempo, foi caleijado demais para ser puro. Foi sendo tampado com mágoas infinitas e engolidas, todas invisíveis. Finjimos que estava tudo bem, enquanto estava sendo afetado o que há de mais verdadeiro e puro no mundo. Como vírus que se instala no corpo e fica lá durante anos pra depois matar subitamente, sem avisar.
Antes que o amor morresse, veio entre nós muros. Batemos de frente. Quebramos a cara.
Hoje eu choro, não porque o perdi, não porque me redimi demais, nem porque estou afetando meu orgulho. Choro porque foi preciso todo esse tempo, toda essa ladainha, para eu perceber tudo isso. Porque eu abri meus olhos, deixei que as lágrimas lavassem minha alma e agora eu enxergo, pai, que minha vida sem seu apoio é um buraco negro de uma estrela que muito brilhou.
Não sei como vai ser bem esse nosso recomeço, do que na verdade, nunca teve fim. É um recomeço forjado, só pra renovar e eliminar o que polui.
no entanto, eu sempre o amarei. Sempre serei sua filhinha, que sim, desde de pequena lhe deu muito trabalho com meu excesso de revolta, desjuízo e mania de querer saber demais. Mas que desde pequena fez de você o sentindo de uma vida. Da minha vida.

L.J.A. Mangueira

quinta-feira, agosto 27, 2009

Variante que depende do contexto


O descompasso do mundo moldou-me um caráter inconstante, todavia, sempre o mesmo. Ainda que eu me regule a uma forma de acordo com o ritmo, sou sempre essa variável, em busca de uma forma que, pelo menos no momento, se harmonize com a vida.
Passa-se o tempo, e eu ainda sou assim. Uma hora eu brigo, grito, explodo. Noutra me devoro e calo em prantos. Deixo uma espécie de rio passar em mim, levar todas as impurezas e me renovar. Sou um ciclo, sou fases, sou uma variante que depende do contexto.
Há quem diga que aquele que sempre muda, não tem personalidade. Que seja aos olhos de quem pensa assim, mas para mim, que assim não pensa, se eu mudo, não é por ausência de personalidade, é por excesso delas. Não uma, mas várias. Para cada ocasião. Para cada fase do ciclo.
E eu adoro quando estou assim, nessa personalidade. Aqui em baixo, desgasta, pisada por mérito de outrora ter abusado de um orgulho que sempre me trai. Humilde. E sinceramente, é difícil pensar, escrever, falar, ser essa palavra: Humilde. Doí-me nas mais profundas entranhas da alma, toca no meu precioso ego.
Mas me faz ser outra. Sou mais pura, mais limpa, mais fácil. Quando se é humilde, pode chorar à vontade, pode perder, pode gritar por socorro. Não preciso me fazer de forte. Não preciso usar a raiva, ódio, impaciência como base de uma falsa força. Não preciso mentir que errei ou que doí tudo aqui dentro. A humildade, automaticamente, me dá a certeza de que vou conseguir meu prêmio. É certo de que todos os humildes, mais que protegidos por um Deus que nem todos acreditam, são protegidos por uma força que rege a vida e os deixam muitas vezes mais alegres que deveriam.
Eu estou assim. Alegre de uma forma que não deveria. Limpa. Minha consciência foi lavada com as lágrimas que derramei. Meu caminho foi limpo com minha confissão de erros que cometi. Estou à deriva no tempo. Solta.
Agora não tenho caminho a ser seguido, nem a ser planejado. Parece ser mais difícil, porque antes, quando estava enraivada e decidida, tinha um caminho sim. Agora que sou um tipo de humildade, estou solta. Mas é mais gostoso viver assim. Sem planejar detalhadamente o amanhã. E sem outra escolha, confiar verdadeiramente no Deus que sigo, porque literalmente, não cabe a mim mais nada. Está tudo nas mãos de Deus.

sexta-feira, agosto 21, 2009


A merda que fizeram de mim, faço dela, eu mesma, ouro. Sem precisar fingir, mentir, esconder. Ouro. Porque pra quem sabe viver, Ouro.

terça-feira, agosto 18, 2009

Vísceras

ruiva

– Eu vomitei. – Disse Leônidas com uma voz tremula e cansada.

An? Você vomitando? Nossa, olha o que a bebiba faz. Aposto que vomitou toda a porcaria que come nesse boteco.

– Não, Ana. Não vomitei simplesmente. Foi algo estranho, não sei como explicar… vomitei durante umas duas horas. Não conseguia parar.

– Duas horas? Comeu tanto assim?Ou melhor, comeu e bebeu né.

– Não vomitei comida, Ana.

– Quê? Vomitou só cerveja?

– Vomitei vísceras – Leônidas desliga o telefone e volta a vomitar.

Dessa vez vomitara um pouco de seu cérebro. Sentiu uma dor súbita na cabeça, ficou tonto e foi deitando aos poucos, não conseguia fazer nada rápido naquela ocasião.

Leônidas tentava entender o que estava acontecendo. Ana não podia estar certa. Ele sempre bebe do mesmo tanto e de repente fica daquele jeito, sem nenhum pré-sintoma, ou sinal de seu corpo? O corpo humano é perfeito. Leônidas sabia que se tivesse algo envolvido com a cerveja, o corpo avisaria antes, com uma gastrite, um ataque no fígado ou coisa parecida.

Ainda fraco tentava juntar as peças desse quebra-cabeça maldito que não conseguia entender, mas seus pensamentos fugiam de seu controle. Ele pensava em Ana, sem querer pensar. Não com amor. Mas com ódio. Todo o ódio que guardara em seu cérebro, durante seus quinze anos juntos. Odiava aquela mulher, a mulher que amava. Não que isso seja um paradoxo, algo impossível. Não no caso de Leônidas que tinha motivos.

Leônidas casara com Ana por amor. Amor louco, doentio. Não via nada além daquela mulher de cabelos vermelhos, pele clara e sorriso malicioso, de voz suave que sempre conseguia tudo que pedisse. Mas ele não era idiota. Sabia que Ana o traía desde quando eram namorados. Sabia que Ana mentia e era uma vadia. O problema era conseguir olhar para aqueles olhos e dizer: Não a quero mais. O problema era nunca mais sentir aquele abraço apertado que ela lhe dava como ninguém, que enlaçava-o como ninguém.

Por ela, mudou sua vida. Largou seus amigos. Brigou com mãe e com toda a família. Ana não deixava ele fazer quase nada. A princípio não era como hoje, ela pedia as coisas num tom felino, roçando-se, miando, falando baixo e sereno e acabava conseguindo. Agora, ainda como felino, ruge a ele pedindo, mandando, chantageando-o. E ainda assim, conseguindo tudo que quer.

E ele assim calado, resignado, cansando. Seu casamento era sempre aquele trabalho servil. Ele chegava de mais um dia longo de labuta e tinha de suportar sua literal patroa, sua chefe, superior, sua autoridade, mãe, avó, qualquer coisa que mande.

Leônidas não era homem de dizer o que pensa. Cresceu com o silêncio aliado em si, jamais ousara dizer o que pensava, preferia concordar com as pessoas à discutir com ela seu verdadeiro ponto de vista. Claro que isso não impedia ele de ter as suas verdadeiras opniões. Na verdade ele tinha além do que se poderia imaginar. Apesar de ser um pacato e burro de carga, era um homem estranhamente inteligente. Sim, Léo era paradoxalmente inteligente.

Trabalhava na aréa administrativa de uma grande empresa. Crescer para ele, profissionalmente, era relativamente fácil, devido sua capicidade infinita de imaginar, criar, inovar. Sua visão periférica das coisas o mantinha nesse patamar, Léo tinha uma ótica única para solucionar problemas ou até mesmo imaginá-los num futuro. Mas todo esse seu talento era sufocado pelo tal amor que sentia por aquela ruivinha vadia.

Finalmente começou a sentir repugnância por aquela mulher. E que fique claro que é uma repugnância mental-emocional, porque sexual, ele era incapaz de sentir. Não mais fazia amor, comia. Devorava aquela ruiva, como que se naquele ato queria vê-la consumida. Queria que ela se dissolvesse na cama após o ato. Sentia nojo do seu vício. Do seu amor e ódio tão infantil.
Ele poderia ter matado-a. Fugido. Ou feito qualquer dessas coisas doentias que fazem por aí. Mas sua inércia o impedia de fazer tais loucuras.

Então Leônidas continuou seu ciclo odioso, com um detalhe: começou a beber todos os finais de semana. Após seis meses, todos os dias. Foi iludido ao pensar que poderia transferir seu vício da ruiva para a bebiba. O que ele fez na verdade foi duplicá-lo. Era a bebida e a ruiva a besta de sua vida, o demônio, diabo, karma, castigo. No dia anterior ao seu vômito maluco, Léo não havia bebido muito. O de sempre ou talvez menos.

Enfim, ao recapitular sua vida e esquecer de lembrar-se dos motivos de sua enfermidade, Léo mais um vez vomitou. Vomitou todas as suas víscera possíveis. Vomitou seus músculos, seus ossos, sua alma. Léo não si via mais vomitando, mas via um jato caindo em si. Ele ali, no chão derretido, ao avesso. Somente restos de Leônidas palpitando no chão.

Só depois que vomitara sua alma pôde entender o porque de tudo. Sim, seu silêncio. Sua mania de guardar tudo para si. Todos esses quinze anos terríveis ao lado de uma ilusão que poderia combatê-la com as palavras, com um não, com um grito. Mas não disse uma vogal que seja. Por isso, após estar saturado de tanta repugnância contra a ruiva e contra si mesmo, vomitou-se. Sentiu o maior de todos os nojos de sua fraqueza e covardia. Jogou no chão a si mesmo, tudo que era Léo e Leônidas, ali no chão, ao avesso, porque era ele o podre de si.

quarta-feira, julho 29, 2009

esse papo já tá qualquer coisa

Não, meu amor. Não estou falando do mundo, eu estou falando e olhe para mim. Eu não preciso ser brilhante para existir, não preciso ser famosa para opinar ou talvez ter sucesso para ser qualquer coisa que seja, mas ser. Eu sou, antes de descobrirem. Tenho certeza de que não descobrirão, tenho certeza e quero essa certeza de ser mais uma camuflada pela massa, ser uma massa, um povo, uma voz entre tantas vozes. Mas que grita.
Por gritar, eu sou. Mesmo que jamais escutem ou quem sabe escutem e não deem atenção a mim, eu grito e é isso que faz de mim um ser gritante, um ser que faz a minha vida e meu destino, um ser ativo que vive e cava nas profundas entranhas da minha alma um vestígio de alegria. Vestígio tão importante e poderoso que é responsável por uma felicidade profunda, jorradora da vida e do amor a mesma vida.
Eu grito e isso não me torna exuberante. Sou mais uma aí, perdida na massa, da cor cinza a da voz tão igual as outras vozes. Eu também choro rio de lágrimas e rio até chorar de alegria.
Mas eu grito! Não como uma desgorvenada que sempre fala o que pensa, que não mede consequências, que não escolhe para quem dizer, muito do que falo é verdadeiro e se não é tudo, é porque tenho bom senso. Não quero guerrear contra os perdidos e muito menos com os onipotentes. Se não fossem as palavras que escrevo, tudo que penso explodiria numa loucura única e imbátivel. Eu preciso gritar, escrever, nem que seja porcarias. São minhas. É minha vida isso aqui. Uma pausa para o grito é antes de tudo uma prevenção de um futuro enfarto. Ou de uma explosão emotiva psicopática. Ou quem sabe, uma veste de um ser que não grita, que não faz sua vida e seu destino, que é entregue. Um agente passivo.

quinta-feira, julho 16, 2009



"Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar
A cada despedida eu vou te amar, desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será pra te dizer que eu sei que vou te amar, por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar a cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar o que essa tua ausência me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu, por toda a minha vida"

[Caetano Veloso - Eu sei que vou te amar]

segunda-feira, julho 06, 2009

Cajelu


"(...) mas aí, você conheceu uma Camila e uma Jéssica da vida, pra ser assim, exatamente como tem que ser."

sexta-feira, julho 03, 2009

Equilíbrio Instável

Por um triz, aqui escondida. Esperando você chegar com suas desculpas, inventar mentiras para não dizer as verdades que me machucam e que não quero ouvir. Quero que minta para mim. Que me mime, me distraia, me faça sentir que sim, que você, mentindo, acredita em mim.
Seu maior erro é não assumir que eu sou mais forte. E meu pior defeito, é buscar na força um equilíbrio. Minha força me trai, quando penso que estou em seu ápice, na verdade estou no precipício, prestes a cair nas fraquezas humanas. Nos choros intermináveis, nos pensamentos que destroem tudo aquilo que construí.
Eu confesso, minha base é fraca. Pouco a pouco se rompe até ficar por um triz. Eu me faço de forte, para não exalar fraqueza, não suporto ver fraquezas alheias por minha culpa, sendo em mim inspiradas.
Estou aqui, esperando você chegar. Fingindo que não estou ansiosa. Não vou contar o tempo. Não vou treinar o que falar para você. Já não tenho medo de perder o que já perdi. Se me vier com perguntas, terá minha essência, serei eu, sem ter medo de dizer o que sinto. E se precisar, eu faço escândalo. Eu grito, eu xingo. Mas você precisa escutar tudo que eu tenho a dizer.
Se eu não convencer você, por favor, minta. Diga que sou seu orgulho. Diga que vai estar ao meu lado. Que trocará minha base fraca, por você. Seja minha base de novo, me tire desse equilíbrio instável, que é, parte, por sua culpa.
Seja meu apoio, seja meu heroí. Viva junto comigo, todo esse inferno. Porque é daqui que vou, e levarei você comigo, para o céu. Estou chegando.

quarta-feira, junho 10, 2009

la médici, deusa!

canto do meu grito, que comigo vive, que em mim é. Grito que existe e persiste em esconder-se atrás de uma personalidade maldita moldada idiota que não minha, mas finjo ser, por enquanto. Porque por enquanto, não sou ninguém que tenha vida ativa vista, mas que cá, dentro do meu lacunoso e vazio cérebro, os pensamentos dançam e se entrelaçam e se trocam. E nasce mais e mais, todos cá, preso num cérebro que finjo existir para finalidades, apenas, visíveis.
Sou o que estudo e isolei dentro de mim, tudo aquilo que me traía a um lugar que não fosse a minha verdadeira finalidade. Agora eu busco caminhos que são retos e únicos, todos fecundando um único objetivo que mais que isso é toda a minha vida. Minha vida girava em torno de Deus. Não que agora não gire mais em torno de alguma coisa, mudei de deus, mas minha vida gira e sobe, movimento helicoidal, longitudinal, com geotropismo negativo. Se cresço contra a gravidade meus amigos imaginários, cresço em direção ao céu. E meu deus agora, não me dá fé. Nem move montanhas. Não é um deus do diabo, é só um deus errado que eu enganei ao seguir. E que na verdade, sendo sintaticamente correta, é uma deusa. Um objetivo que fagocitou um sonhou e gerou um deus (deusa). Quem corre demais atrás de uma coisa, alcança. Mas o que é feito de si? De mim? Eu vou conseguir, claro que eu sei. Mas e eu? Girarei então em torno dessa deusa que na verdade, não tem poderes algum? Sinto falta do verdadeiro Sol. Do meu lugar ao Sol.

sábado, maio 09, 2009

Ela sumiu, sumiu e nunca mais voltou.

Quero rasgar este invólucro. Sentir o pico mais alto de uma liberdade que ainda nem existe. Rasgar fronteiras, invadir espaços e sê-me por inteiro.
Conhecer cada milímetro do que, realmente, sinto. Decorar meus gostos e saber de cor os desgosotos.
Sair, fugir, rugir. De um mundo, realidade, de uma configuração que parece ser monótona. Mas que eu sei que o que há de mais errado aqui, sou eu. E o que penso. Sou eu o erro de um mundo que já tem seu ritmo. Eu sou o desconserto. E também o desconcerto.
Não para todos, mas para mim. O que há de estranho e antígeno, é meu cérebro e suas vontades insaciáveis de voar. Mas, como? Alçar voô num espaço onde não há pista?
Abraços, pessoas. Jamais se tocaram. Todos flutuam e todos projetam abraços. Literalmente, ou melhor, microscopicamente.
Não busco sentimentos. Não busco expirência. Eu quero sair do invólucro mundano. Quero acelerar o máximo possível para que eu sinta que estou em movimento.

Não sei, não sei. Espere, fique aqui. Me escute, me entenda, me solte, saia daqui!

domingo, abril 05, 2009

ah!

eu adoro esnobar o que não presta, adoro fazer sofrer as coisas que são podres, não para mim, mas por si própria, por existir.
adoro estar no patamar baixo da humildade, usando-a como escudo das coisas fúteis e toscas, mas estando na verdade, acima de tudo, voando.
gosto de agradar meus gostos e apagar aqueles que fizeram em mim. Gosto de fazer o que quero, mas reprimir meu ego com as rédeas do bom senso.
Saía de mim, mundismo. Porque eu vivo muito e durmo pouco para ser mais uma.