umapausa

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terça-feira, agosto 18, 2009

Vísceras

ruiva

– Eu vomitei. – Disse Leônidas com uma voz tremula e cansada.

An? Você vomitando? Nossa, olha o que a bebiba faz. Aposto que vomitou toda a porcaria que come nesse boteco.

– Não, Ana. Não vomitei simplesmente. Foi algo estranho, não sei como explicar… vomitei durante umas duas horas. Não conseguia parar.

– Duas horas? Comeu tanto assim?Ou melhor, comeu e bebeu né.

– Não vomitei comida, Ana.

– Quê? Vomitou só cerveja?

– Vomitei vísceras – Leônidas desliga o telefone e volta a vomitar.

Dessa vez vomitara um pouco de seu cérebro. Sentiu uma dor súbita na cabeça, ficou tonto e foi deitando aos poucos, não conseguia fazer nada rápido naquela ocasião.

Leônidas tentava entender o que estava acontecendo. Ana não podia estar certa. Ele sempre bebe do mesmo tanto e de repente fica daquele jeito, sem nenhum pré-sintoma, ou sinal de seu corpo? O corpo humano é perfeito. Leônidas sabia que se tivesse algo envolvido com a cerveja, o corpo avisaria antes, com uma gastrite, um ataque no fígado ou coisa parecida.

Ainda fraco tentava juntar as peças desse quebra-cabeça maldito que não conseguia entender, mas seus pensamentos fugiam de seu controle. Ele pensava em Ana, sem querer pensar. Não com amor. Mas com ódio. Todo o ódio que guardara em seu cérebro, durante seus quinze anos juntos. Odiava aquela mulher, a mulher que amava. Não que isso seja um paradoxo, algo impossível. Não no caso de Leônidas que tinha motivos.

Leônidas casara com Ana por amor. Amor louco, doentio. Não via nada além daquela mulher de cabelos vermelhos, pele clara e sorriso malicioso, de voz suave que sempre conseguia tudo que pedisse. Mas ele não era idiota. Sabia que Ana o traía desde quando eram namorados. Sabia que Ana mentia e era uma vadia. O problema era conseguir olhar para aqueles olhos e dizer: Não a quero mais. O problema era nunca mais sentir aquele abraço apertado que ela lhe dava como ninguém, que enlaçava-o como ninguém.

Por ela, mudou sua vida. Largou seus amigos. Brigou com mãe e com toda a família. Ana não deixava ele fazer quase nada. A princípio não era como hoje, ela pedia as coisas num tom felino, roçando-se, miando, falando baixo e sereno e acabava conseguindo. Agora, ainda como felino, ruge a ele pedindo, mandando, chantageando-o. E ainda assim, conseguindo tudo que quer.

E ele assim calado, resignado, cansando. Seu casamento era sempre aquele trabalho servil. Ele chegava de mais um dia longo de labuta e tinha de suportar sua literal patroa, sua chefe, superior, sua autoridade, mãe, avó, qualquer coisa que mande.

Leônidas não era homem de dizer o que pensa. Cresceu com o silêncio aliado em si, jamais ousara dizer o que pensava, preferia concordar com as pessoas à discutir com ela seu verdadeiro ponto de vista. Claro que isso não impedia ele de ter as suas verdadeiras opniões. Na verdade ele tinha além do que se poderia imaginar. Apesar de ser um pacato e burro de carga, era um homem estranhamente inteligente. Sim, Léo era paradoxalmente inteligente.

Trabalhava na aréa administrativa de uma grande empresa. Crescer para ele, profissionalmente, era relativamente fácil, devido sua capicidade infinita de imaginar, criar, inovar. Sua visão periférica das coisas o mantinha nesse patamar, Léo tinha uma ótica única para solucionar problemas ou até mesmo imaginá-los num futuro. Mas todo esse seu talento era sufocado pelo tal amor que sentia por aquela ruivinha vadia.

Finalmente começou a sentir repugnância por aquela mulher. E que fique claro que é uma repugnância mental-emocional, porque sexual, ele era incapaz de sentir. Não mais fazia amor, comia. Devorava aquela ruiva, como que se naquele ato queria vê-la consumida. Queria que ela se dissolvesse na cama após o ato. Sentia nojo do seu vício. Do seu amor e ódio tão infantil.
Ele poderia ter matado-a. Fugido. Ou feito qualquer dessas coisas doentias que fazem por aí. Mas sua inércia o impedia de fazer tais loucuras.

Então Leônidas continuou seu ciclo odioso, com um detalhe: começou a beber todos os finais de semana. Após seis meses, todos os dias. Foi iludido ao pensar que poderia transferir seu vício da ruiva para a bebiba. O que ele fez na verdade foi duplicá-lo. Era a bebida e a ruiva a besta de sua vida, o demônio, diabo, karma, castigo. No dia anterior ao seu vômito maluco, Léo não havia bebido muito. O de sempre ou talvez menos.

Enfim, ao recapitular sua vida e esquecer de lembrar-se dos motivos de sua enfermidade, Léo mais um vez vomitou. Vomitou todas as suas víscera possíveis. Vomitou seus músculos, seus ossos, sua alma. Léo não si via mais vomitando, mas via um jato caindo em si. Ele ali, no chão derretido, ao avesso. Somente restos de Leônidas palpitando no chão.

Só depois que vomitara sua alma pôde entender o porque de tudo. Sim, seu silêncio. Sua mania de guardar tudo para si. Todos esses quinze anos terríveis ao lado de uma ilusão que poderia combatê-la com as palavras, com um não, com um grito. Mas não disse uma vogal que seja. Por isso, após estar saturado de tanta repugnância contra a ruiva e contra si mesmo, vomitou-se. Sentiu o maior de todos os nojos de sua fraqueza e covardia. Jogou no chão a si mesmo, tudo que era Léo e Leônidas, ali no chão, ao avesso, porque era ele o podre de si.