umapausa

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quarta-feira, março 31, 2010

"limpar a chaminé", disse Freud.


não há noites sãs e as fomes são meras sensações fisiológicas. Mal posso esperar para poder encontrar você, contar como foi meu dia e me arrepender por ter falado tanta coisa. Não é a ansiosidade que me corrompe, já sou corrupta por ser eu mesma, porque firo meus próprios princípio sendo tão inconstante e volúvel. Ah, mas que se foda todas as constâncias emocionais, estamos falando de rotina, de nunca ter tempo pra nada, de não poder fazer de tudo que mais gosta, respirar um ar ventilado, tomar um sol beira praia ou ficar horas falando com a melhor amiga de todas. Eu falo da obrigação mental de ter que "ter". Eu tenho que fazer tantas coisas, tenho que ter tantas coisas, tenho que ser tanta coisa que precisaria de dias mais longos, noites mais curtas e ausência do sono. Se não fosse meu desequilíbrio comigo, não existiria meu eu. Sou assim, não sendo certa, mas sendo pateticamente verdadeira. Eu estou no lugar errado e sempre estive, eu sei. Saí do grupo de pessoas loucas para morar aqui nesse asilo da normalidade exagerada. Pode uma intensa querer abraçar a lógica? Pode, porque eu abraço e a tenho comigo. Eu sou, em prantos, fraca e, esporadicamente, muito forte. Compreendo minha determinação e tenho consciência do caminho que irei percorrer, será sem mais tempo ainda, espinhoso, me apertará mais ainda, mas eu gosto disso. Tá vendo? Meu ter tempo é simplesmente pensar demais, ficar aqui lamentando minhas poucas desgraças e minha triste sina de ser a luna de todos os dias. Todos os dias suportar meus próprios limites, de conversar com meu estômago e falar: come, amor, eu preciso de alimentos. E dizer para meu cérebro parar de latejar, gritar, quebrar meu crânio de dor: meu anjo, eu não consigo resolver listas de físicas enquanto você doí. Quem diria, enxaqueca. Eu cresci sem saber o que é dor de cabeça, o máximo que tive foi quando descobri que precisava usar óculos. E nada se compara com esta dor, fotofobia, enjoô, freios de carros me irritam, o barulho do ar concionado, sapatos arrastando no chão e principalmente o som que as luzes exalam no ar. Sem a crise, tenho pesadelos, como sempre, seguindo o meu cotidiano. Mas com as dores, os pesadelos me flagelam comendo os restos que tem de mim, eu acordo um caco, durmo de novo, choro, mato aula de novo. Choro, não consegui almoçar. Nem fazer aquele exercicío fácil de matemática. Choro, vou pro computador, edito fotos, faço vídeos e penso que escrever é a cura. E continuo chorando, não em lágrimas, não em vozes, mas em alma, que é o pior de todos os choros. Se ao menos saísse lágrimas, lavaria, metaforicamente, minha alma. Mas não sai, e eu estou ansiosa demais para passar toda essa dor. Quando eu vejo os noves ponto alguma coisa da nas redações, quando eu vejo os bons pontos de matérias que realmente estudei e amei, eu me recomponho. Ah, eu odeio de verdade este mundo que amo. Falar, falar, escrever, escrever. "Limpar a chaminé", Freud e sua psicanálise tão certa. Limpei.

segunda-feira, março 29, 2010

anedota de uma menininha e seus hormônios

Professor, você pode explicar de novo porquê a decomposição do amor forma vapor d'água mais ódio e calor? Não, vou passar a matéria adiante, ou você deglute isso ou mais tarde no escuro eu sintetizo a fórmula para você. Isso é um assédio? Sim, por que? Porque assédio é só depois do casamento, case comigo e me ensine a calcular equações polinomiais, quero achar o x e rasgar você. Não vou casar com você, cale essa boca, você tá atrapalhando a aula... o quê? menina, ponha já esta camiseta de volta, seu sutiã está encardido de tristeza! não, não o tire, eu não quis dizer isso... oh, que lindos...

--Acorde, você tá atrasada.

segunda-feira, março 08, 2010

três horas e trinta e três minutos da madrugada


Ah, não sei. De repente você sai gargalhando da boate e a caminho do carro você encontra um menino descabelado, descalço, com aqueles olhos fundos e vermelho que mal dá pra saber se é droga ou tristeza. De repente você sai feliz de uma feira, levando uma comida gostosa pra comer em casa e se depara com uma mulher magricela, um menino nos braços, suplicando com o olhar e boca umas moedas. De repente você vai pro cinema e ouvindo uma música agitada no carro, som alto, sorrisos, aquele clima de alegria, e no semáforo, a esquina está cheia de desabrigados, com roupas marrom-velhice, um deles vem até você, olhar, absorver, comer sua alegria.
Tá. Eu já parei com ideazinhas de mudar o mundo, tocar os corações alheios com palavras vãs. Já parei de acreditar em revoltas quaisquer que iludem e não passam disso. Mas eu ainda tenho este coração chagado e incoerente, que carrega ao mesmo tempo felicidade e tristeza. Não ora uma, ora outra. Simultâneamente, as duas.
E o pior, categorizo como normalidade. Ponho dessas máscaras que vendem por aí, de quem está acostumado a viver em cidade grande, miséria, mendigo, lixos revirados. Converso sério com o meu cérebro: isso não é problema seu. Ah, mas essa máscara está suja, e mais que me contamina, me infecta, passo a ter uma patologia chamada coração de pedra.
De repente, acordo 3:33h. Daquele jeito desesperado, de quem acha que está atrasado, de quem teve pesadelo, de quem foi assustado. Mas não era nada. Era só a máscara que tinha caído do meu rosto.
Me roubam de volta pro mundo, todos esses olhares. Eu que saio, discreta, pro Meu mundinho, minha vidinha egoísta e só minha. Cultivo uma cultura de problemas, rego todos os dias com melo-drama de quem tem autopiedade ( e jura que não!), de quem tem a doença do narcisismo. Mas não. O mundo tá lá fora. De novo.

"[...]Mas a compaixão sempre me trouxe de volta à Terra. Ecos de gritos e dor reverberam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desprotegidos - odiosa carga para seus filhos- e o mundo inteiro de solidão, pobreza, dor e transformaram a em arremedo o que a vida humana poderia ser. Anseio ardentemente aliviar o mal, mas não posso, e também sofro com isso. [...]"
RUSSEL, Bertrand. Minha vida