umapausa

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segunda-feira, março 08, 2010

três horas e trinta e três minutos da madrugada


Ah, não sei. De repente você sai gargalhando da boate e a caminho do carro você encontra um menino descabelado, descalço, com aqueles olhos fundos e vermelho que mal dá pra saber se é droga ou tristeza. De repente você sai feliz de uma feira, levando uma comida gostosa pra comer em casa e se depara com uma mulher magricela, um menino nos braços, suplicando com o olhar e boca umas moedas. De repente você vai pro cinema e ouvindo uma música agitada no carro, som alto, sorrisos, aquele clima de alegria, e no semáforo, a esquina está cheia de desabrigados, com roupas marrom-velhice, um deles vem até você, olhar, absorver, comer sua alegria.
Tá. Eu já parei com ideazinhas de mudar o mundo, tocar os corações alheios com palavras vãs. Já parei de acreditar em revoltas quaisquer que iludem e não passam disso. Mas eu ainda tenho este coração chagado e incoerente, que carrega ao mesmo tempo felicidade e tristeza. Não ora uma, ora outra. Simultâneamente, as duas.
E o pior, categorizo como normalidade. Ponho dessas máscaras que vendem por aí, de quem está acostumado a viver em cidade grande, miséria, mendigo, lixos revirados. Converso sério com o meu cérebro: isso não é problema seu. Ah, mas essa máscara está suja, e mais que me contamina, me infecta, passo a ter uma patologia chamada coração de pedra.
De repente, acordo 3:33h. Daquele jeito desesperado, de quem acha que está atrasado, de quem teve pesadelo, de quem foi assustado. Mas não era nada. Era só a máscara que tinha caído do meu rosto.
Me roubam de volta pro mundo, todos esses olhares. Eu que saio, discreta, pro Meu mundinho, minha vidinha egoísta e só minha. Cultivo uma cultura de problemas, rego todos os dias com melo-drama de quem tem autopiedade ( e jura que não!), de quem tem a doença do narcisismo. Mas não. O mundo tá lá fora. De novo.

"[...]Mas a compaixão sempre me trouxe de volta à Terra. Ecos de gritos e dor reverberam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desprotegidos - odiosa carga para seus filhos- e o mundo inteiro de solidão, pobreza, dor e transformaram a em arremedo o que a vida humana poderia ser. Anseio ardentemente aliviar o mal, mas não posso, e também sofro com isso. [...]"
RUSSEL, Bertrand. Minha vida

4 comentários:

Ivan Bueno disse...

Antes de ler:
Pausa dada de imadiato, logo ao acessar seu blog, porque minha caixa de entrada do Outlook acusou o recebimento de um comentário seu. Leia lá o comentário do comentário. Mas a sincronia foi máxima. Será que começo a ser menos agnóstico? (rs...)

Agora à leitura do seu grito:
Belo. Que reflexo do que a gente vive todo dia. Que equação difícil essa do sensibilizar-se, julgar, saber ajudar, distância e proximidade!
Acho que todos nós, ou ao menos todos os seres sensatos e pensantes, são sempre, e simultaneamente, ou ao menos quase, felicidade e tristeza. Os 100% alegres são bobos-alegres, com predominância na bobice acéfala. A tristeza é sinal de visão aguçada, de sensibilidade e bom senso. Não precisa ser sempre, mas é humano ocorrer. Desumano seria o oposto.
Essas máscaras, todos pomos, pois sem elas a gente não consegue viver. É preciso filtrar um pouco pra não sucumbir. Não é falsidade, é tática de sobrevivência. Adorei a imagem da máscara que cai e te faz acordar assustada.
A vida é bela, mas é também doída, incoerente e tantas vezes inconsistente para tantos. C'est la vie...

Beijo graaaaaaaande.

LunaJeannie disse...

aí é que tá Ivan, depois de milhões de anos, eu fui perceber que a gente precisa dessa máscara. E foi real, acordei 3:33h e não parei mais de pensar em tudo, nessa angústia. Até que entrei em trabalho de parto e eis esse post! hahah.. Adoro suas palavras. Você é pessoa que mais escreve nessa vida, toda hora posta, escreve até nos comentários.. E não consegue escrever nada desnecessário. Beijo grande, e bendita seja a máscara nossa de cada dia! haha :)

V. Linné disse...

eu acho que entendo um pouco disso que você grita. ao mesmo tempo, porém, é duro demais para conseguir admitir. a máscara é só o que nos protege o rosto.

Fábio Coelho disse...

"Converso sério com o meu cérebro: isso não é problema seu. Ah, mas essa máscara está suja, e mais que me contamina, me infecta, passo a ter uma patologia chamada coração de pedra."
quantas vezes eu ja senti isso. Luna, é bom ter a vida cheia de confortos, mas é péssimo ter a vida cheia de confortos "e se deparar com uma mulher magricela, um menino nos braços, suplicando com o olhar e boca umas moedas". ou, eu sei direitimmmm o que voce falou nesse texto, até porque acho que mais cedo ou mais tarde os "de vida boa, como nós" se tocam e sentem essa dor de ter tudo enquanto outro nao tem nada. parece que a gente é inútil nesses horas, eu sei como é. Você retratou tão bem, porque eu vejo essa máscara que vc disse como uma covardia, como o fato de a gente ter tudo que quer sabendo que tem tanta gente na miséria. e o que eu achei massa tbm foi vc ter acordado às 3:33 da madruga. parece que alguma coisa fez vc acordar essa hora e fez vc refletir sobre isso e escrever isso tudo, em forma de vômito! curti demais, um texto lindo! às vezes a gente pensa que nossos textos só servem pra nós, mas isso nao é verdade, muita gente que os lê aprende muita coisa também. é por isso que eu gosto de literatura. luna, um beijo! t.a.