umapausa

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quarta-feira, maio 19, 2010

buraco


Procuro profundidades. Vou ali cavando, cavando, até entender que não há mais o que cavar. Me jogo lá dentro, me lambuzo do escuro, me vejo só. Não choro, porque sou forte. Mas como a terra, por desespero. Então assumo: errei. E me sujo de novo, mas com o vazio. Farta e enjoada, vomito. Suja pelo meu próprio veneno, cravo as unhas nas paredes de terra que me apertam. Vou forte, vou determinada. Saio. Faço meu próprio parto, de novo, ao mundo.
Mas a luz me cega. A luz lá fora, tão intensa, tão irritante, me assusta. Eu me cabisbaixo. Não por ser perdida, triste ou qualquer artefato que me induzem a ser. Por assumir que quando saio da toca, da minha toca, o mundo me assusta. Por proteger meus olhos de uma fotofobia. Por simplesmente abaixar a cabeça por um momento, um momento. Até que a terra úmida lá em baixo, me chama. E me fala: sou teu útero, tua morada.
Mas é que um dia todo mundo precisar se parir. E foi meu dia. Minha vez. No mundo onde as luzes me acompanham, onde me abraçam, me jogam, me dançam, me falam, me fazem de tudo; eu não estou sozinha, eu sei. Tão cheia de tantos, mas vivendo na superfície absoluta. Superficialmente. Superficialidade.