umapausa

umapausa

terça-feira, agosto 30, 2011

Ode a você

Rogo a ti o vazio
Que tuas noites se encham de fantasmas
Que teu passado te roube deste tempo
Que teu rosto se estravase derretido
pelas lágrimas que mereces teus olhos
Que a saudade te sufoques perdido
Que grites sem voz espasmos
Que teu peito se incha de nada
para que tu enlouqueças com os espaços vazios
Que tua casa não haja barulho
Que teu quarto seja apenas penumbra
Que teus vizinhos todos viajem
e te deixes amargo no tédio
Que assim tu penses em meu nome
E te lembres das chagas que me causaste
E te agonizes arrependido
Delirando os perdões que mereço

segunda-feira, agosto 22, 2011

ateando palavras, cuspindo nossas vidas, sucumbindo as catarses que faziam nosso instante. Dos "também" que criam vínculos, é que desde sempre coincidência une forte duas vidas. Fujo, feito besta, das grandes amizades, dos grandes amores e grandes vidas. Nem é preguiça, nem medo. É sensação de que invado outras almas, outras pessoas já consagradas, seres tão quietos em seu estado individual. Eu sempre venho me quebrando,  moldando e sendo moldada, me enfiando na sua vida, empurrando você na minha. Vou aprendendo, aprendendo. Aprendendo até que com quem não ensina, faço meu próprio sincretismo, pego de você um pouco de mim. Mas vai tudo ruindo, as pessoas têm prazo de vencimento. A gente se curte por um tempo, até eu descobrir que não há mais tempo. É que o tempo destrói tudo. Ou com o tempo tudo se destrói.


"Não sou boa companhia, não gosto de conversar. Não quero trocar ideias- nem alma" 
                                                                                                         (Bukowski)

domingo, agosto 21, 2011

do desprezo

o mais pútrido de lidar com esta lástima é a desnecessária lacrimação de minha face, atrapalhando a compostura de boa moça que resolvi atuar. Clamo, então, à frieza o ofício de me possuir, por inteira. É que pra ser boa moça é preciso ser dura, ser fria, não ter coraçãozinho palpitante demais, pra ter gentileza e perninhas cruzadas.
Tudo culpa sua, que me dá o trabalho de completar estas linhas sangrentas. Sujas de lágrimas e pedaços largados de mim. Não faz mal. Sou ótima atriz e talvez eu nem esteja atuando, boa moça me torno quando apenas choro por momentos tenebrosos,  ainda que eu lhe fale algumas coisas que arde em veneno, a ardência é menos do que seria se eu não fosse tão boa moça. E acredite, cada vez menos sinto vontade de desafiar seu fedor.
Após os choros e falácias, conserto o lacinho dos cachos que ocupam meu cabelo e volto a sorrir.
Aqui, linda e comportada, destilo seu pedaço, que me dá de esmola, ao meu veneno. Depois refolgo a alho e óleo e como até lambuzar a alma. Acabo com a vontade de ser a justiceira ou até rebelde. Simplesmente engulo este goste acre que é você. E desprezo. E esqueço.

quinta-feira, agosto 18, 2011

também quero prostar

Nem venha, alegria. Os muito felizes são bestas. Porque até pra isso tem de haver mensura. Me cego, tapo os ouvidos e me entupo na corriqueira audácia de prazer e prazer e risos enfim. Quem é muito alegre não se mede, nem se vê. É preciso tristeza para se cavar um pouco.
A euforia aperta uma glândula que me enxarca de esquecimento, porque é nas distrações que se perde o foco. Mas é assim mesmo, pregam no mundo: " Só Felicidade". Chorar é errado e ficar triste, uma blasfêmia.
De que são feitos esses seres que só riem e curtem a vida?
Ah, prazer. Nem sempre te quero tanto. São minhas lágrimas que me trazem a mim, que me fazem pensar, onde errei, o quê errei, quem errei. Não é ingratidão, é reconhecimento. Boa vida demais me atrapalha, me estabiliza. Fico onde estou, mas quero crescer. Vinde a mim a doce melancolia, daquelas que me deixam cabisbaixa e bonitinha, daquelas que me fazem esquecer os desejos e, triste, pulsante, continuar.

quinta-feira, agosto 11, 2011

d'angústia

me sacrificando de mim, do amor e piedade. Cansei-me, silêncio, boa moça e sorrisinho. Selvagem saudade que rasga meus ossos, deixando-me ao pó. Sou toda frieza, nada me toca. Você crepitou, crepitou, crepitou e eu cessei de mim a boa vontade. Agora te deixo um áspero da miséria que pra mim é fartura, perto do que merecia seus escarros. Mas é assim, nosso segredo. Enquanto pensa que sou veneno, quebro-me de tristeza da saudade que tenho dos ois de todo santo dia. Dos alôs, a você. Dos domingos. Agora todos os dias são segunda-feira. Porque é o que há de mais longe de domingo.

segunda-feira, agosto 08, 2011

m.(pouco) josé

Porque nem calculo o tempo que perdi escrevendo pra você, por você, de você.
Nem calculo as lágrimas que derramei pra você, por você, de você.
Você é o pior dos meus amores ou você é o que eu mais amo.
O que mais maldigo, o que mais desprezo. O que mais odeio! E sinto saudades.
O que mais quero ver feliz e infeliz, rindo e chorando, falando e calado, cabisbaixo, depressivo. Completo!
Quero você refletindo da vida, olhando pro horizonte: os dois numa mesa e você me oferecendo suco de laranja sem gelo, falando " isso aqui é melhor que cerveja".
O nosso açaí. O nosso sorvete. As bostas das suas músicas tocando na bosta do seu carro.
Quero a contração do espaço, a devolução do tempo. Os abraços não dados, aninhados, os mais puros. Os olhos vermelhos quando se diz do passado. Quero histórias verídicas, malditas ou mentiras bem feitas.
Quero sua confusão, sua surpresa, seu delírio.
Do josé que arrebata uma inha, a dobra em bebê e faz chorar, como nenhum homem faz.
Do melhor josé que conheço, do pior josé que não tive.

sexta-feira, agosto 05, 2011





" a gente nunca pode apreciar, direito, mesmo, as coisas bonitas ou boas, que aconteciam. Às vezes, porque sobrevinha depressa e inesperadamente, a gente nem estando arrumado. Ou esperadas, e então não tinham gosto de tão boas, era só um arremedado grosseiro. Ou porque as outras coisas, as ruins, prosseguiam também, de lado e do outro, não deixando limpo o lugar. Ou porque faltam ainda outras coisas, acontecidas em diferentes ocasiões, mas que careciam de formar junto com aquelas, para o completo. Ou porque, mesmo enquanto estavam acontecendo, a gente sabia que elas já estavam caminhando, para se acabar, roídas, pelas horas, desmanchadas..."



(João Guimarães Rosa - Os Cismos)