umapausa

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domingo, março 22, 2015

auto-costura

viu-se dentro de suas próprias brechas. quis se prender. e ao passo que ia se costurando naquelas lacunas, fundia-se com o nunca mais voltar. Porque era isso disso que precisava, das desamarras, das solturas, dos adeus. e mesmo se achando livre, estava condenada aqueles fios e nós, perdida e amaldiçoada ao pra sempre dentro de si. era o que se configurava naquele resto de momento a liberdade. não sabia mais pra onde correr.
era os avisos lá fora, as coisas mexendo, as notícias que transbordavam num feed de notícias sem fim. era medíocre querer viver pro mundo, era pequeno ser talvez, mais um habitante desse profundo planeta superficial, Terra. buzinas e cheiros de fumaças. amizades que fediam baratas. famílias interrompidas. empregos de plásticos. haviam os sexos espumando doenças que o amor resolveu adotar. haviam leites envenenando crianças que nunca mais iriam pensar.
havia alguns lapsos de vozes e sussurros. aah mas, eram tantos prantos. e gritos para seus ouvidos já cansados de ter de exercer sua função. eram abraços que arrancavam corações, eram beijos que estrangulavam as feridas velhas de outros beijos. tantos não enfiando na cara. tantos sim que condenavam. o mundo estava caótico. melhor seria subverter.
mesmo insanamente cheia de tudo. mesmo tão cansada do todo, achou um espaço nos seus vazios. nas brechas que jazia de seu corpo furado de sofrer. foi nisso que pregou sua liberdade decadente. queria costurar seu eu no seu próprio vazio. porque este era o único espaço. a única lacuna que lhe cabia respirar. e foi assim que viveu para sempre presa nos seus próprios vazios.

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